
A caçada ao 99º Oscar começou antes de a maioria do público perceber. A cerimônia só acontece em 14 de março de 2027, no teatro Dolby, com Conan O’Brien apresentando pelo terceiro ano seguido, mas a corrida por indicações já ganhou contorno: os festivais de inverno e verão classificaram os primeiros favoritos, as telonas de casa avaliaram os blockbusters do meio do ano e as plataformas de previsão — que monitoram críticos, editores e membros da indústria — publicaram seus primeiros ranqueamentos. O quadro que se desenha é incomum: um épico verão, um drama em espanhol e um sci-fi de comédia desenhado como principais ameaças, enquanto os lançamentos do outono ainda aguardam para reorganizar tudo.
Apostar cedo em Oscar é um jogo de margens: os favoritos de setembro raramente sobrevivem intactos até janeiro, e a história recente da premiação está cheia de corridas que mudaram de dono entre o outono e a votação. Mas é exatamente por isso que acompanhar as apostas antecipadas vale a pena — entender quem parte na frente, por que parte e onde o mercado pode estar enganado é a leitura que transforma o acompanhamento da temporada de premiações de diversão em análise.
O favorito claro: The Odyssey
Nada na temporada atual chega perto da posição de Christopher Nolan. Sua adaptação da Odisseia de Homero, estrelada por Matt Damon como Odisseu e rodada integralmente em câmeras IMAX, estreou em julho de 2026 com recepção entusiasmada de crítica e público, bilheteria de blockbuster e o pedigree de premiações de quem vinha de Oppenheimer — vencedor de sete Oscars, incluindo melhor filme e direção. As plataformas de previsão colocam o filme com probabilidade máxima de indicação, e o próprio THR, na primeira tabela de prognósticos, aponta Nolan como líder em filme e direção, Matt Damon como vice-líder em ator e Anne Hathaway como forte concorrente de atriz coadjuvante por sua Penélope.
Os argumentos a favor do filme são estruturais, não apenas de gosto. O perfil se repete: épico de escala, diretor consagrado, elenco de estrelas, bilheteria bilionária — a mesma fórmula que levou Oppenheimer ao topo. E a narrativa da campanha já está pronta: Damon descreveu a produção como a mais exigente fisicamente de sua carreira, um detalhe que conversa diretamente com eleitores da categoria de ator. O único ponto frágil identificado pelos analistas é o oposto do habitual: com um filme tão dominante, a conversa vira sobre quantos Oscars ele ganha, não se ganha.
Os perseguidores: quem pode derrubar o líder
Se The Odyssey é o favorito, o resto do pelotão é onde a corrida se decide. Os nomes mais citados pelos prognósticos de setembro e outubro:
- La Bola Negra. O drama em espanhol dos diretores Javier Ambrossi e Javier Calvo, premiado no Festival de Cannes e vencedor do prêmio do público no TIFF — um indicador histórico que quase sempre antecede indicações de melhor filme. Distribuído pela Netflix como sua principal candidata da temporada, o filme segue três gerações de homens conectados por desejo, dor e história familiar, com Penélope Cruz e Glenn Close no elenco. É a ameaça mais séria ao favorito.
- Project Hail Mary. A adaptação do romance de Andy Weir, dirigida por Phil Lord e Chris Miller com Ryan Gosling e Sandra Hüller, surpreendeu críticos e público e virou a história mais simpática da corrida. O tom mais leve, raro em uma temporada de dramas pesados, é tido como vantagem competitiva real.
- Wild Horse Nine. A comédia negra de Martin McDonagh com John Malkovich como agente da CIA enviado à Ilha de Páscoa às vésperas do golpe chileno de 1973, ganhou força no Telluride e em Veneza, onde Malkovich levou a Volpi Cup de melhor ator — e os analistas passaram a colocá-lo à frente até de Damon na categoria.
- Dune: Part Three. A conclusão da trilogia de Denis Villeneuve estreia apenas em 18 de dezembro, mas já é cotada como indicação quase automática. O histórico das duas primeiras partes soma quinze indicações ao Oscar, e o discurso de campanha — o «epílogo épico», o encerramento recompensado como aconteceu com O Retorno do Rei — está pronto há anos.
- The Debut e The Invite. O novo filme de Jesse Eisenberg, com atuação apontada como imbatível de Julianne Moore, e o drama de Olivia Wilde, sensação do Sundance, completam o grupo de concorrentes com mais de 80% de probabilidade nas tabelas de previsão.
A leitura conjunta desses nomes revela o padrão da temporada: até o momento, praticamente ninguém em séria disputa nas categorias de atuação já venceu um Oscar — uma característica rara que os analistas destacam como marca deste ciclo.
Como as apostas estão precificando a corrida
As plataformas de prognóstico traduzem a temporada em probabilidades que se atualizam a cada festival e sessão de imprensa. O retrato de outubro mostra uma corrida em camadas:
| Filme | Probabilidade de indicação (melhor filme) | Situação da corrida |
|---|---|---|
| The Odyssey | ~100% | Favorito consolidado em filme e direção |
| Wild Horse Nine | ~100% | Sustentado pelo nome de Malkovich em ator |
| Project Hail Mary | ~96% | Surpresa de qualidade e apelo popular |
| La Bola Negra | ~93% | Ameaça real ao favorito; líder em filme internacional |
| The Debut | ~89% | Atuação de Julianne Moore como candidata imbatível |
| The Invite | ~89% | Sensação do Sundance com boa bilheteria |
| Dune: Part Three | ~82% | Ainda sem previsão de recepção; estreia em dezembro |
| Fjord | ~50% | Estreou em Cannes, mas caiu após exibições seguintes |
| Obsession | ~46% | Terror com atriz revelação; cotado como outsider |
| Digger / I Play Rocky / Elsinore | ~39% | Despencaram após projeções de imprensa |
O movimento mais revelador da tabela está na última linha. Digger, a comédia sombria da Warner com Tom Cruise, chegou a setembro com cerca de 90% de probabilidade e despencou depois das projeções para imprensa em Nova York e Los Angeles — o tipo de queda que mostra como as sessões de imprensa do outono funcionam como plebiscitos silenciosos. O mesmo mecanismo funciona em ascensão: um filme que ainda estreia, como Werewulf de Robert Eggers (25 de dezembro), pode entrar na conversa da noite para o dia.
As categorias de atuação: a temporada dos estreantes
Se o melhor filme tem um favorito, as categorias de atuação têm um fenômeno: nenhum dos líderes no prognóstico já recebeu um Oscar. Isso abre a temporada para perfis raramente vistos no topo. Os destaques das apostas:
- John Malkovich (Wild Horse Nine). Aos setenta e poucos anos, com duas indicações que remontam a mais de quatro décadas, é apontado como o ator a bater — o perfil do «ator dos atores» que a Academia historicamente recompensa.
- Matt Damon (The Odyssey). Vice-líder em ator, com uma atuação fisicamente intensa em um filme bilionário; a narrativa da superação da produção sustenta a campanha.
- Julianne Moore (The Debut). A única das líderes já vencedora, apontada como candidata a segundo Oscar por uma atuação que provocou reações fortes em cada exibição pública.
- Sandra Hüller. Onipresente na temporada: concorre em três filmes diferentes (Digger, Project Hail Mary e Fatherland), repetindo o padrão de anos anteriores quando dominou as conversas de atuação.
- Penélope Cruz. Única atriz com chance real de duas indicações na mesma temporada, por The Invite e La Bola Negra — e o peso de ambas as campanhas a coloca no centro da corrida coadjuvante.
- Zendaya. A tríade The Drama, The Odyssey e Dune: Part Three faz dela uma das atrizes mais expostas da temporada; a expectativa dos analistas é que Dune 3, com o material denso que a fonte literária reserva à personagem Chani, seja a via mais provável para sua primeira indicação.
A predominância de nomes ainda sem estatueta sugere um desfecho com recorde de primeiros vencedores — e, historicamente, temporadas assim favorecem campanhas de narrativa forte: a espera longa de Malkovich, o físico de Damon, a tripla atuação de Hüller. As apostas antecipadas, aqui, compram histórias tanto quanto filmes.
O calendário que ainda vai mexer em tudo
O quadro atual é provisório por definição, porque uma parcela significativa dos candidatos só estreia a partir de agora. O cronograma da Academia para a 99ª cerimônia segue rígido: as inscrições encerram em 12 de novembro, a votação de indicações ocorre entre 11 e 15 de janeiro, os indicados serão anunciados em 21 de janeiro e a votação final se estende de 25 de fevereiro a 4 de março. Entre esses pontos, três janelas concentram o poder de reorganizar a corrida:
- Outono: a temporada de festivais. O Festival de Nova York lança Artificial, de Luca Guadagnino, e Behemoth!, de Tony Gilroy, entre outros; o próprio THR aponta Wild Horse Nine como o título mais provável de explodir a partir dos festivais de outono — e, de fato, a Volpi Cup de Malkovich em Veneza já confirmou a previsão.
- Dezembro: a ofensiva dos blockbusters. Godzilla Minus Zero (6 de novembro), Dune: Part Three (18 de dezembro) e Werewulf (25 de dezembro) chegam no mês em que a Academia decide o que ainda tem memória afetiva fresca na hora de votar em janeiro.
- Janeiro: as indicações como juízo final. O anúncio de 21 de janeiro transforma o mercado de prognósticos: filmes que chegaram com 90% caem, cotados de fora entram, e as apostas de vencedor se reescrevem em dias.
Quem acompanha o circuito de apostas conhece bem a lição do calendário: setembro coroa, dezembro muda, janeiro decide. O favorito de hoje tem quase todas as indicações garantidas — mas o vencedor de março de 2027 será definido por quem vier depois.
Sonho do mercado ou realidade: os renegados do outono
Para além do pelotão estabelecido, a temporada carrega uma reserva de candidatos cujo potencial as apostas ainda não precificam totalmente. São títulos que podem mudar tudo ou sumir do mapa, e é justamente a incerteza que os torna interessantes: The Social Reckoning, de estreia marcada para outubro; The Adventures of Cliff Booth, com David Fincher assumindo a direção da sequência estrelada por Brad Pitt; I Play Rocky, que narra a criação do personagem de Stallone; A Statement, do vencedor do Oscar Tom McCarthy; e Parallel Tales, o novo filme de Asghar Farhadi, cercado de prestígio — e de controvérsia.
O mercado historicamente trata essas apostas com ceticismo até que o outono confirme, mas o padrão dos últimos anos mostra que pelo menos um filme de cada temporada atravessa a linha do improvável e vira concorrente de verdade. As plataformas que hoje colocam esses títulos fora das dez primeiras posições revisaram essa posição ao menos uma vez por ciclo — e o ciclo 2026/27, com seu outono particularmente denso, não tem cara de exceção.
Conclusão
A corrida ao Oscar 2027 chegou a outubro com um formato que a premiação raramente viu: um favorito de força quase sem precedentes em The Odyssey, uma ameaça em espanhol — La Bola Negra — que carrega o prêmio do público de Toronto e a bandeira da Netflix, uma comédia científica simpática em Project Hail Mary e uma temporada de atuações dominada por nomes que nunca subiram ao palco. As apostas antecipadas refletem essa hierarquia com precisão: o líder tem probabilidade total de indicação, os perseguidores se apertam entre 80 e 100%, e o resto do campo disputa as vagas de fundo do pelotão.
Mas a história da premiação ensina uma única lição que sobrevive a todos os prognósticos: o outono de 2026 ainda não aconteceu por inteiro, Dune: Part Three ainda nem estreou, e o padrão das temporadas recentes mostra favoritos de setembro perdendo terreno para surpresas de dezembro e janeiro. As apostas cedo valem, sobretudo, como leitura do mercado — e a leitura de hoje aponta uma corrida com o favorito mais forte em anos e uma plêiade de candidatos capazes de derrubá-lo. Até o dia 14 de março de 2027, a única certeza é que o placar final ainda está em aberto.